RENATO DA SILVA COSTA
Até um dia filho

Querido Filho
Palavras, tenho-as todas na ponta da língua, prontas para dizê-las uma
a uma a quem precisar, mas quando tento confortar meu coração,
posso procurá-las em um milhão, que não encontro uma explicação do que sinto,
de como agir, de como continuar.
Sinto a mão de Deus em todo lugar, onde ando, onde olho, onde espero a paz brotar,
sinto que Ele quer me mostrar o caminho, como trilhar com tanto peso ?
Vejo na chuva de meus olhos a saudade, o amor, a dor,
a dor do homem que não sentiu-a no parto, mas que agora em dobro ou triplo
a sente no adeus que modifica, turva e amarga o Eu.
Trago no peito o não sei o que, será que um dia ? e porque ?
Trago no peito a esperança que dói enquanto não chega.
Trago na lembrança a pegada de amor, de fé, carinho e muita saudade.
Vida, morte, um fio que arrebenta e que leva para longe e para o alto
aquela pipa bem feita, linda, e eu, como criança, sem entender,
choro na esperança de que um dia a consiga recuperar, trazê-la de volta,
junto a mim. Trago no coração, talvez a certeza de que foi
a mão de Deus, o combinado,
que destino malvado que leva daquele o pedaço gostoso e deixa o salgado;
É o aprendizado.
Sobe para o céu, pipa, e leva um recado, diz ao Criador que estamos do seu lado,
aguardando a nossa vez .
Enrolo a minha linha e aguardo .
Tenho a vida me esperando, não sei se hoje ou amanhã,
enquanto isso vou te procurando,
quem sabe eu a encontro no lugar menos esperado,
aí então descobriremos porque
a linha arrebentou ? me deixando sem ação, chorando .
A lembrança é bonita e calorosa, mas traz um vazio tão grande .
Quero acreditar, e acredito que foi a hora, mas dói , dói demais .
Sei que Deus não me esqueceu, sei me dará força e paz, espero confiante
Seu pai
Mairiporã, 26 de maio de 1994.